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sexta-feira, 20 de setembro de 2013

* Crime e preconceito: mães e filhos de santo são expulsos de favelas por traficantes evangélicos

A filha de santo foi expulsa do Lins porque deixou suas roupas brancas no varal
A filha de santo foi expulsa do Lins porque deixou suas roupas brancas no varal Foto: Urbano Erbiste / Extra
Rafael Soares
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A roupa branca no varal era o único indício da religião da filha de santo, que, até 2010, morava no Morro do Amor, no Complexo do Lins. Iniciada no candomblé em 2005, ela logo soube que deveria esconder sua fé: os traficantes da favela, frequentadores de igrejas evangélicas, não toleravam a “macumba”. Terreiros, roupas brancas e adereços que denunciassem a crença já haviam sido proibidos, há pelo menos cinco anos, em todo o morro. Por isso, ela saía da favela rumo a seu terreiro, na Zona Oeste, sempre com roupas comuns. O vestido branco ia na bolsa. Um dia, por descuido, deixou a “roupa de santo” no varal. Na semana seguinte, saía da favela, expulsa pelos bandidos, para não mais voltar.
- Não dava mais para suportar as ameaças. Lá, ser do candomblé é proibido. Não existem mais terreiros e quem pratica a religião, o faz de modo clandestino - conta a filha de santo, que se mudou para a Zona Oeste.
A situação da mulher não é um ponto fora da curva: já há registros na Associação de Proteção dos Amigos e Adeptos do Culto Afro Brasileiro e Espírita de pelo menos 40 pais e mães de santo expulsos de favelas da Zona Norte pelo tráfico. Em alguns locais, como no Lins e na Serrinha, em Madureira, além do fechamento dos terreiros também foi determinada a proibição do uso de colares afro e roupas brancas. De acordo com quatro pais de santo ouvidos pelo EXTRA, que passaram pela situação, o motivo das expulsões é o mesmo: a conversão dos chefes do tráfico a denominações evangélicas.
Mãe de santo teve terreiro fechado na Pavuna pelo
Mãe de santo teve terreiro fechado na Pavuna pelo "exército de Jesus" Foto: Urbano Erbiste / Extra
Atabaques proibidos na Pavuna
A intolerância religiosa não é exclusividade de uma facção criminosa. Distante 13km do Lins e ocupada por um grupo rival, o Parque Colúmbia, na Pavuna, convive com a mesma realidade: a expulsão dos terreiros, acompanhados de perto pelo crescimento de igrejas evangélicas. Desinformada sobre as “regras locais”, uma mãe de santo tentou fundar, ali, seu terreiro. Logo, recebeu a visita do presidente da associação de moradores que a alertou: atabaques e despachos eram proibidos ali.
-Tive que sair fugida, porque tentei permanecer, só com consultas. Eles não gostaram — afirma.
A situação já é do conhecimento de pelo menos um órgão do governo: o Conselho Estadual de Direitos do Negro (Cedine), empossado pelo próprio governador. O presidente do órgão, Roberto dos Santos, admite que já foram encaminhadas denúncias ao Cedine:
- Já temos informações desse tipo. Mas a intolerância armada só pode ser vencida com a chegada do estado a esses locais, com as UPPs.
O deputado estadual Átila Nunes (PSL) fez um pedido formal, na última sexta-feira, para que a Secretaria de Segurança investigue os casos.
- Não se trata de disputa religiosa mas, sim, econômica. Líderes evangélicos não querem perder parte de seus rebanhos para outras religiões, e fazem a cabeça dos bandidos — afirma.
Nas favelas, os ‘guerreiros de Deus’
Fernando Gomes de Freitas, o Fernandinho Guarabu, chefe do tráfico no Morro do Dendê, ostenta, no antebraço direito, a tatuagem com o nome de Jesus Cristo. Pela casa, Bíblias por todos os lados. Já em seus domínios, reina o preconceito: enquanto os muros da favela foram preenchidos por dizeres bíblicos, os dez terreiros que funcionavam no local deixaram de existir.
Guarabu passou a frequentar a Assembleia de Deus Ministério Monte Sinai em 2006 e se converteu. A partir daí, quem andasse de branco pela favela era “convidado a sair”. Os pais de santo que ainda vivem no local não praticam mais a religião.
A situação se repete na Serrinha, ocupada pela mesma facção. No último dia 22, bandidos passaram a madrugada cobrindo imagens de santos nos muros da favela. Sobre a tinta fresca, agora lê-se: “Só Jesus salva”.
O babalaô Ivanir dos Santos, representante da Comissão de Combate à Intolerância Religiosa (CCIR), criada justamente após casos de intolerância contra religiões afro-brasileiras em 2006, afirma que os casos serão discutido pelo grupo, que vai pressionar o governo e o Ministério Público para que a segurança do locais seja garantida e os responsáveis pelo ato sejam punidos. “Essas pessoas são criminosas e devem ser punidas. Cercear a fé é crime”, diz o pai de santo.
Mãe de santo: proibida de circular na favela com as
Mãe de santo: proibida de circular na favela com as "roupas do demônio" Foto: Urbano Erbiste / Extra
Lei mais severa
Desde novembro de 2008, a Polícia Civil considera como crimes inafiançáveis invasões a templos e agressões a religiosos de qualquer credo a Lei Caó. A partir de então, passou a vigorar no sistema das delegacias do estado a Lei 7.716/89, que determina que crimes de intolerância religiosa passem a ser respondidos em Varas Criminais e não mais nos Juizados Especiais. Atualmente, o crime não prescreve e a pena vai de um a três anos de detenção.
Filha de santo, que foi expulsa do Lins: ‘Não suportava mais fingir ser o que não era’.
- Me iniciei no candomblé em 2005. A partir de minha iniciação, comecei a ter problemas com os traficantes do Complexo do Lins. Quando cheguei à favela de cabeça raspada, por conta da iniciação, eles viravam o rosto quando eu passava. Com o tempo, as demostrações de intolerância aumentaram. Quando saía da favela vestida de branco, para ir ao terreiro que frequento, eles reclamavam. Um dia, um deles veio até a minha casa e disse que eu estava proibida de circular pela favela com aquelas “roupas do demônio”. As ameaças chegaram ao ponto de proibirem que eu pendurasse as roupas brancas no varal. Se eu desrespeitasse, seria expulsa de lá. No fim de 2010, dei um basta nisso. Não suportava mais fingir ser o que eu não era e saí de lá.
Mãe de santo há 30 anos, expulsa da Pavuna: ‘Disseram que quem mandava ali era o ‘Exército de Jesus”.
- Comprei, em 2009, um terreno no Parque Colúmbia, na Pavuna. No local, não havia nada. Mas eu queria fundar um terreiro ali e comecei a construir. No início, só fazia consulta, jogava búzios e recebia pessoas. Não fazia festas nem sessões. Não andava de branco pelas ruas nem tocava atabaque, para não chamar a atenção. Um dia, o presidente da associação de moradores foi até o local e disse que o tráfico havia ordenado que eu parasse com a “macumba”. Ali, quem mandava na época era a facção de Acari. Já era mais de santo há 30 anos e não acreditei naquilo. Fui até a boca de fumo tentar argumentar. Dei de cara com vários bandidos com fuzis, que disseram que ali quem mandava era o “Exército de Jesus”. Disse que tinha acabado de comprar o terreno e que não iria incomodar ninguém. Dias depois, cheguei ao terreiro e vi uma placa escrito “Vende-se” na porta — eles tomaram o terreno e o puseram a venda. Não podia fazer nada. Vendi o terreno o mais rapidamente possível por R$ 2 mil e fui arrumar outro lugar.

sábado, 31 de agosto de 2013

* Universitária gera revolta nas redes sociais após comentário racista


Os comentários de uma aluna do curso de Publicidade e Propaganda da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (PUC-RS) no Twitter revoltou internautas e gerou repercussão nas redes sociais na noite desta sexta-feira. Chamada de racista, Marina Ceresa chegou a ser repreendida pelo Centro Acadêmico da universidade e teve que se explicar em outra publicação.
Tudo aconteceu quando a jovem estava a caminho da universidade quando, segundo ela, um carro com um casal negro quase a atropelou. “Acabei de quase ser atropelada por um casal de negros. Depois vocês falam que é racismo né, mas TINHA QUE SER, né?”, disse a estudante, que completou em outra mensagem: “E estavam num carro importado, certo que é roubado”.
Dois minutos após a publicação, Marina fez outro comentário, tentado se defender de eventuais acusações de racismo. “Eu não sou racista, aliás, eu não tenho preconceitos. Mas, cada vez que aprontam uma dessas comigo, nasce 1% de barreira contra PRETOS em mim”, disse.
Não demorou muito para que as publicações fossem replicadas não só no Twitter como em perfis do Facebook. Ainda na noite de ontem, o perfil do O Centro Acadêmico Arlindo Pasqualini (CAAP) da Faculdade de Comunicação Social (Famecos) da PUCRS divulgou nota lamentando o caso. “Nós, estudantes de comunicação social da PUCRS, não nos calaremos diante do racismo praticado por colegas da nossa faculdade. Práticas como essa devem ser combatidas em toda a sociedade. Atuaremos de forma ainda mais incisiva em casos presentes em nossa universidade”, dizia a nota.
Por conta da repercussão instantânea, a universitária resolveu deletar sua conta no Twitter, mas decidiu manter ativo seu perfil no Facebook, pelo qual divulgou uma nota se desculpando pelo ocorrido. Na publicação, Marina explicou o ocorrido e reconheceu ter errado no teor do comentário. “Estou postando essa nota de esclarecimento porque eu olhei para o que eu escrevi e percebi que eu fui muito errada em colocar aquelas palavras de efeito”, disse.
Veja, na íntegra, o comentário publicado pela aluna:
“Gurizada:
Esse final de tarde rendeu um acontecimento deplorável de minha parte.
Estava atravessando a Protásio Alves, em frente a minha rua, atrasada para a minha aula das 19h30 e pedi para um carro parar para que eu pudesse atravessar. Ele parou, foi educado e, quando fui atravessar a próxima faixa, um carro parou em cima de mim e encostou no meu corpo. Eu parei, e falei “passa, sou educada” e o cara ainda me xingou, falando que eu não deveria estar atravessando porque o trânsito fluía. Ele parou 30m a frente, ou seja, ele poderia ter sido educado e ter me deixado passar. Dois minutos depois, abri meu Twitter e publiquei um post ofendendo o motorista e sua passageira (negros), postando palavras de intuito racista, palavras de ofensa e frases de efeito preconceituosas. Um amigo deu RT (compartilhamento) nessa frase e, por muito “azar” de minha parte (ou por sorte, pra eu cair na real e perceber a cagada que eu fiz) um perfil famoso do Twitter deu um outro RT que me renderam centenas de interações, xingamentos, notificações e RTs.
To (sic) postando essa nota de esclarecimento porque eu olhei para o que eu escrevi e percebi que eu fui muito errada em colocar aquelas palavras de efeito. Eu não sou racista; não tenho nenhum tipo de preconceito, seja com homossexuais (e derivados, trans, bis, etc.), índios, negros, brancos, ruivos, pardos ou qualquer outra raça. Eu tenho inúmeros amigos negros, inclusive faço brincadeiras de todas as formas com eles e elas são sempre entendidas, gargalhadas e esquecidas.
Sábado passado eu dancei a noite inteira com um negro numa festa. Hoje à tarde eu simplesmente caguei pela boca no Twitter, joguei a merda no ventilador, falei coisas que eu não deveria falar nem por mensagem nem pessoalmente com qualquer amigo. Eu sei que é fácil falar e pedir desculpas, mas as minhas desculpas são (e muito) sinceras. Recebi ameaças, fiquei com medo, chorei a aula inteira, não prestei atenção, saí 20 minutos mais tarde da PUCRS acompanhada de uns amigos e de dois seguranças, pois foram comunicados que eu havia feito tal coisa (invenção, pois o que falaram não aconteceu).
Pedi a um amigo que deletasse meu Twitter, deletei minha página de fotos do Facebook (trabalho) e, mais tarde, talvez delete o Facebook também. Eu sou a pessoa mais orgulhosa do mundo; eu poderia estar aqui defendendo essa situação até o último minuto, mas to “dando braço a torcer” em nome do meu orgulho e to pedindo desculpas a todos os meus amigos negros pelas palavras horríveis que escrevi, pelas brincadeiras de mal gosto que foram feitas. Espero que sejam aceitas, vocês sabem que eu não sou desse tipo. Rafinha Bastos disse que o humor não tem limites, mas hoje descobri que a “zueira” maldosa e negativa tem.
Fica aqui, mais uma vez, meu sincero pedido de desculpas.”
Veja  também a nota publicada, na noite de ontem, pelo (CAAP):
“Racismo não é brincadeira
Na noite de hoje, uma estudante da Famecos escreveu comentários racistas em seu Twitter. Nós, estudantes de comunicação social da PUCRS, não nos calaremos diante do racismo praticado por colegas da nossa faculdade. Práticas como essa devem ser combatidas em toda a sociedade. Atuaremos de forma ainda mais incisiva em casos presentes em nossa universidade.
A sociedade precisa avançar no debate sobre o racismo. Os negros travam uma longa batalha contra a discriminação pela cor e suas conseqüências. Podemos observar isso pela baixa inserção de negros e negras em nossa universidade. Nos altos índices de violência contra o negro também notamos o quão sofrida ainda é a sua história. Sabemos que a exclusão social, cultural e intelectual é uma triste realidade para o povo negro. 
O CAAP divulga esta nota para que casos como esse não se repitam. Devemos denunciar e nos posicionar em situações como esta. O nosso papel enquanto centro acadêmico é repudiar veemente esta atitude e não permitir que o racismo esteja presente na Famecos. Lutamos por uma Famecos sem preconceito e, por isso, deixar de expor este acontecimento seria legitimar o racismo presente em nossa faculdade.
O CAAP valoriza a cultura Afro. Acreditamos que a igualdade não tenha cor e seremos incansáveis na defesa de uma faculdade sem racismo e preconceito.
A partir desse acontecimento, vamos debater e refletir formas de combate ao racismo e a todos os outros tipos preconceitos. Na Famecos não há espaço para o preconceito.”

sábado, 3 de agosto de 2013

* Discriminação racial e de crença em Hospital: "Manda essa negra macumbeira sair da sala"!


Ialorixa
Um acontecimento na última semana chocou a comunidade do candomblé de Salvador. A ialorixá Therezinha da Silva, 65 anos, estava no Hospital Roberto Santos, onde procurava pelo médico de prenome Raimundo, quando diz ter sido destratada pela coordenadora da emergência da unidade, chamada Carol.
“Fui totalmente maltratada por essa mulher”, contou a líder religiosa, visivelmente abalada, ao Bahia Notícias. Segundo dona Therezinha, após perguntar por Raimundo, Carol teria relatado a ausência do profissional e pedido que ela se retirasse da sala. Do lado de fora, contudo, a ialorixá ouviu a suposta frase que gerou o problema.
“Manda essa negra macumbeira sair da sala, já conheço ela aqui do hospital”, acusou.
Consternada com a situação, a idosa se dirigiu à ouvidoria da unidade e teve como resposta que “a pessoa [Carol] estava nervosa e que quando eu precisasse falar com o médico, não fosse ao hospital”.
A equipe do Roberto Santos foi procurada pela equipe do Bahia Notícias, porém não quis se pronunciar. “Publique. Depois a gente responde”, disse a assessora Bernadete Farias, aos gritos.

"Nossos médicos não são bons clínicos e se baseiam só em exames", diz doutor em Saúde

Importação de médicos: fatos que a imprensa omitiu

Os médicos brasileiros têm medo de quê?

Por que o CFM tem medo dos médicos cubanos?

Fonte: Bahia Noticia

segunda-feira, 29 de julho de 2013

* Justiça made in Brasil?

Recebido de 


Um jovem rapaz aguarda sua vez, para utilizar o serviço de um caixa eletrônico dentro de uma
agência bancária. Enquanto espera um senhor fazer sua transação bancária no caixa logo a sua frente. Mesmo com o jovem rapaz na faixa de espera, dentro da distância limite. O senhor se incomoda com a presença do rapaz logo atrás dele, pedindo para ele se dirigir para um outro caixa eletrônico. O rapaz relembra ao senhor que está dentro da distância permitida. E que sua transação bancária só poderia ser feita no mesmo caixa que ele estava utilizando. Mesmo dando ordens repetidas para o jovem sair da área onde estava, ele permaneceu dentro do seu DIREITO em aguardar sua vez.
O senhor irritado com o rapaz pergunta onde ele trabalha, para logo em seguida falar que em ele era: Ari Pargendler, presidente do STJ, para logo em seguida perguntar o nome do rapaz, arrancando o crachá do seu pescoço. Demitindo ele sumariamente do estágio onde fazia no STJ!
O rapaz em questão, Marco Paulo dos Santos entrou com um Processo contar esse Ministro do STJ, que NITIDAMENTE abusou da sua função FORA do seu alcance de Juiz. Prevalecendo da velha "carteirada" em cima de um cidadão comum.
Isso aconteceu à três anos atrás, onde esse Processo permaneceu esperando um parecer do procurador-geral Roberto Gurgel, onde ele pediu o ARQUIVAMENTO do processo, por não ter visto nada de errado no comportamento desse truculento Ministro.
Mesmo com a agência repleta de câmaras, onde se podia provar todo relato do Marco Paulo dos santos; jamais foi pedida as imagens como prova nesse Processo.
Para Roberto Gurgel o Ministro ARRANCAR o crachá desse estagiário, não caracterizou algo para humilhar esse rapaz. Mas, para o Ministro poder LER o nome dele!
A demissão do rapaz na concepção do Roberto Gurgel?
Sem relevância alguma!
FALAR MAIS O QUE???
PAÍS DIFÍCIL DE SE VIVER !!
( Raquel Santana )

" A injustiça num lugar qualquer é uma ameaça à justiça em todo o lugar."
( Martin King )


" De tanto ver triunfar as nulidades; de tanto ver prosperar a desonra, de tanto ver crescer a injustiça. 
De tanto ver agigantarem-se os poderes nas mãos dos maus, o homem chega a desanimar-se da virtude, a rir-se da honra e a ter vergonha de ser honesto."
( Rui Barbosa )

domingo, 28 de julho de 2013

* Joaquim Barbosa: "Brasil não está preparado para um presidente negro"


joaquim presidente
Para o presidente do Supremo Tribunal Federal (STF), ainda há bolsões de intolerância racial não declarados no Brasil. Ele afirma não ser candidato e diz que seu nome tem aparecido com relevância em pesquisas eleitorais por causa de manifestações espontâneas da população. Segundo ele, que se define politicamente como alguém de inclinação social democrata à europeia, o Brasil precisa gastar melhor seus recursos públicos, com inúmeros setores que podem ser racionalizados ou diminuídos.
Presidente do STF falou com exclusividade à colunista Míriam Leitão
O senhor é candidato à presidente da República?
Não. Sou muito realista. Nunca pensei em me envolver em política. Não tenho laços com qualquer partido político. São manifestações espontâneas da população onde quer que eu vá. Pessoas que pedem para que eu me candidate e isso tem se traduzido em percentual de alguma relevância em pesquisas.

As pessoas ficaram com a impressão de que o senhor não cumprimentou a presidente.
Eu não só cumprimentei como conversei longamente com a presidente. Eu estava o tempo todo com ela.
O Brasil está preparado para um presidente da República negro?
Não. Porque acho que ainda há bolsões de intolerância muito fortes e não declarados no Brasil. No momento em que um candidato negro se apresente, esses bolsões se insurgirão de maneira violenta contra esse candidato. Já há sinais disso na mídia. As investidas da “Folha de S.Paulo” contra mim já são um sinal. A “Folha de S.Paulo” expôs meu filho, numa entrevista de emprego. No domingo passado, houve uma violação brutal da minha privacidade. O jornal se achou no direito de expor a compra de um imóvel modesto nos Estados Unidos. Tirei dinheiro da minha conta bancária, enviei o dinheiro por meios legais, previstos na legislação, declarei a compra no Imposto de Renda. Não vejo a mesma exposição da vida privada de pessoas altamente suspeitas da prática de crime.
Como pessoa pública, o senhor não está exposto a todo tipo de pergunta e dúvida dos jornalistas?
Há milhares de pessoas públicas no Brasil. No entanto os jornais não saem por aí expondo a vida privada dessas pessoas públicas. Pegue os últimos dez presidentes do Supremo Tribunal Federal e compare. É um erro achar que um jornal pode tudo. Os jornais e jornalistas têm limites. São esses limites que vêm sendo ultrapassados por força desse temor de que eu eventualmente me torne candidato.
Que partido representa mais o seu pensamento?
Eu sou um homem seguramente de inclinação social democrata à europeia.
Como ampliar o Estado para garantir direitos de quem esteve marginalizado, mas, ao mesmo tempo, controlar o controle do gasto público para manter a inflação baixa?
O primeiro passo é gastar bem. Saber gastar bem. O Brasil gasta muito mal. Quem conhece a máquina pública brasileira, sabe que há inúmeros setores que podem ser racionalizados, podem ser diminuídos.
O senhor disse que o Brasil está numa crise de representação política. O que quis dizer com isso?
Ela se traduz nessa insatisfação generalizada que nós assistimos nesses dois meses. Falta honestidade em pessoas com responsabilidade de vir a público e dizer que as coisas não estão funcionando.
Quando serão analisados os recursos dos réus do mensalão?
Dia primeiro de agosto eu vou anunciar a data precisa.
Eles serão presos?
Estou impedido de falar. Nos últimos meses, venho sendo objeto de ataques também por parte de uma mídia subterrânea, inclusive blogs anônimos. Só faço um alerta: a Constituição brasileira proíbe o anonimato, eu teria meios de, no momento devido, através do Judiciário, identificar quem são essas pessoas e quem as financia. Eu me permito o direito de aguardar o momento oportuno para desmascarar esses bandidos.
Por que o senhor tem uma relação tensa com a imprensa? O senhor chegou a falar para um jornalista que ele estava chafurdando no lixo.
É um personagem menor, não vale a pena, mas quando disse isso eu tinha em mente várias coisas que acho inaceitáveis. Por que eu vou levar a sério o trabalho de um jornalista que se encontra num conflito de interesses lá no Tribunal. Todos nós somos titulares de direitos, nenhum é de direitos absolutos, inclusive os jornalistas. Afora isso tenho relações fraternas, inúmeras com jornalistas.
A primeira vez que conversamos foi sobre ações afirmativas. Nem havia ainda as cotas. Hoje, o que se tem é que as cotas foram aprovadas por unanimidade pelo Supremo. O Brasil avançou?
Avançou. Inclusive, entre as inúmeras decisões progressistas que o Supremo tomou essa foi a que mais me surpreendeu. Eu jamais imaginei que tivéssemos uma decisão unânime.
Nos votos, vários ministros reconheceram a existência do racismo.
O que foi dito naquela sessão foi um momento único na história do Brasil. Ali estava o Estado reconhecendo aquilo que muita gente no Brasil ainda se recusa a reconhecer, e a ver o racismo nos diversos aspectos da vida brasileira.
Os negros são uma força emergente. Antes, faziam sucesso só nas artes e no futebol, mas, agora, eles estão se preparando para chegar nos postos de comando e sucesso em todas as áreas. Como a sociedade brasileira vai reagir?
Ainda não vejo essa ascensão dos negros como algo muito significativo. Há muito caminho pela frente. Ainda há setores em que os negros são completamente excluídos.
Como o Brasil supera isso?
Discutindo abertamente o problema. Não vejo nos meios de comunicação brasileiros uma discussão consistente e regular sobre essas questões.
Como superar a desigualdade racial, mantendo o que de melhor temos?
O que de melhor nós temos é a convivência amistosa superficial, mas, no momento em que o negro aspira a uma posição de comando, a intolerância aparece.
Como o senhor sentiu no carnaval tantas pessoas com a máscara do seu rosto?
Foi simpático, mas, nas estruturas sociais brasileiras, isso não traz mudanças. Reforça certos clichês.
Reforça? Por quê
Carnaval, samba, futebol. Os brasileiros se sentem confortáveis em associar os negros a essas atividades, mas há uma parcela, espero que pequena da sociedade, que não se sente confortável com um negro em outras posições.
O senhor foi discriminado no Itamaraty?
Discriminado eu sempre fui em todos os trabalhos, do momento em que comecei a galgar escalões. Nunca dei bola. Aprendi a conviver com isso e superar. O Itamaraty é uma das instituições mais discriminatórias do Brasil.
O senhor não passou no concurso?
Passei nas provas escritas, fui eliminado numa entrevista, algo que existia para eliminar indesejados. Sim, fui discriminado, mas me prestaram um favor. Todos os diplomatas gostariam de estar na posição que eu estou. Todos.

Leia mais de Miriam Leitão:

Inclusão do negro para uma elite com a cara do Brasil

Escravidão: Destruir a obra

O bom combate

A POLÍTICA DE COTAS

Escravos na Justiça


Neste vídeo, O Ministro Joaquim Barbosa diz que não existe Partido que nos represente e o Congresso Nacional é manipulado pelo Poder Executivo!

Veja antes que eles sumam com o Video

quarta-feira, 17 de julho de 2013

* OAB denuncia tortura de jovem negro!

Policiais torturam jovem negro com choques nos genitais e na língua; OAB denuncia barbárie

Jovem de 19 anos foi submetido a choques no peito, nos genitais, na língua e teve um saco colocado na cabeça para não respirar. “Vamos levar ele para a desova”, teria dito um dos homens. Ismael começou a rezar. Comando admite culpa e afasta dois suspeitos
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Ismael da Conceição é servente de pedreiro
Desde que foi liberado da delegacia, na madrugada de domingo, o servente de pedreiro Ismael Ferreira da Conceição se limita a andar do quarto para a sala. O jovem de 19 anos, que tem um problema na perna esquerda, passou a caminhar com ainda mais dificuldade. Ele se queixa de dores causadas por uma sessão de agressões e choques que durou cerca de cinco horas.
Em um relato corroborado pela família, vizinhos e advogada, Ismael diz ter sido seguidamente torturado por policiais militares – após supostamente ser confundido com um assaltante – dois dias depois da ocupação de 12 comunidades do Uberaba (PR), ocorrida na última quinta-feira, na capital. O caso foi denunciado ontem pela Comissão de Direitos Hu­­manos da Ordem dos Advogados do Brasil – Seção Paraná. O Comando da Polícia Militar reconheceu o fato e informou que dois PMs foram afastados preventivamente.
Ismael conta que às 17 horas do último sábado recebeu um telefonema de um amigo convidando-o para sair. Ele havia acabado de chegar em casa após o fim da jornada de trabalho. De banho tomado, montou na bicicleta e foi em direção ao ponto de encontro, na casa de um deles.

Após pedalar por algumas quadras, foi avistado por uma viatura da PM que participa da Unidade do Paraná Seguro (UPS). Segundo ele, o veículo fez a volta e bloqueou a passagem. “Passou por nós, azar o seu. Cadê a arma?”, perguntou um dos policiais saindo da viatura. Ismael disse que não tinha qualquer arma. Outro policial o derrubou da bicicleta e, com o servente no chão, apertou-lhe a garganta. Outro deu um chute nas costelas e perguntou mais uma vez sobre uma arma.
Ismael respondeu pedindo para que os policiais o acompanhassem até em casa, onde poderia apresentar documentos. Foi então colocado no camburão. Segundo ele, xingamentos racistas começaram a pipocar, e se tornaram a forma-padrão de tratamento até o fim do cativeiro. O rapaz demonstrou preocupação com a bicicleta, que permanecia tombada na rua. “Tua bike já era. Tu tá preso”, comunicou um policial.
Dez minutos depois, a viatura chegou à casa de Ismael. A família do jovem vive em Piraquara, no entanto ele mora com os patrões. Cinco anos atrás, Ismael conheceu Cristiano, o filho cadeirante de Lairi Inez Campiol, 52 anos, e Celso Luís Pereira, de 36 anos, proprietários de uma pequena empresa de acabamentos em construção civil. Cristiano convidou Ismael para participar do time de basquete em cadeira de rodas da Universidade Federal do Paraná (UFPR). Quando os pais se mudaram para a região metropolitana, o que impossibilitaria a rotina de treinamentos, os pais do amigo o acolheram. E lhe deram um emprego.
Segundo Lairi, os policiais entraram na casa e começaram a vasculhar os cômodos, abrindo armários e jogando objetos no chão. Disseram que estavam procurando armas. “Temos um flagrante. Ele confessou que fez um assalto e a vítima já o reconheceu”, disse um PM. Enquanto isso, Ismael permanecia trancado na viatura estacionada do outro lado da rua. Ninguém podia vê-lo. Celso perguntou pelo funcionário. Os policiais foram até o camburão e retiraram o rapaz. Levaram-no até o quintal, mas não deixaram ninguém tocá-lo ou conversar com ele.

“Fui espancado, sufocado e levei choques”, diz vítima

Após a busca no imóvel, que se revelou infrutífera, a patrulha foi embora levando Ismael. Os donos da casa perguntaram o que seria feito do garoto. Os policiais informaram que ele estava preso, mas não revelaram para qual delegacia seria levado.
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A dona de casa Lairi Inez Campiol, que dá abrigo a Ismael, mostra a casa no Uberaba revirada depois da passagem da polícia
No meio da confusão que se formou na rua, um vizinho passou para o casal o número de telefone de uma advogada. “Nunca precisamos de um profissional da área criminalística, então não sabíamos o que fazer”, lembra Lairi Inez Campiol.
A advogada Raquel Farah, 46 anos, atendeu à ligação de Lairi enquanto se preparava para atender a uma ocorrência no 8º Distrito Policial. Ao ouvir a história, se comprometeu a tentar descobrir o paradeiro de Ismael.
O jovem, entretanto, não foi levado a uma delegacia. A primeira parada foi em um descampado. O servente diz ter identificado cinco policiais, que se alternaram distribuindo chutes, socos e estrangulamento. “Se você contar onde é a boca, a gente te solta”, teria dito um deles.
Após um tempo que o agredido é incapaz de estimar, foi mais uma vez trancado no carro. Ele lembra que ficou um bom período na viatura parada, dentro do porta-malas, como se os policiais tivessem retornado ao posto.
A próxima parada foi em uma construção pequena, com duas camas, três armários e um computador. Ismael supõe que se trata de um posto policial. Ali, segundo ele, voltou a ser agredido. Alguns rostos eram novos. Também foi submetido a choques no peito, nos genitais e na língua. “Vamos levar ele para a desova”, teria dito um dos homens. Ismael começou a rezar.

Na delegacia: “Eles desistiram de você”

Eram 21 horas quando Ismael da Conceição foi levado algemado até o Hospital Cajuru para tratar dos ferimentos. “Não diga que você está sentindo dor”, ameaçou o homem que o escoltava. Às 22h30, foi finalmente entregue ao 8º DP. A advogada Raquel Farah havia sido informada da chegada apenas 15 minutos antes.
Na delegacia, os PMs apresentaram uma arma de brinquedo como pertencente a Ismael. O que se seguiu, segundo a advogada, foi uma discussão entre policiais civis e militares, ouvida ao longe também por Lairi Campiol e Celso, que haviam acabado de chegar. Os agentes da delegacia apontavam a inconsistência da prova.
A vítima do assalto chegou para fazer o reconhecimento. Ismael foi colocado ao lado de dois outros detidos. Apesar de a roupa ser semelhante à do autor do roubo (tênis branco, calça jeans e camisa xadrez), o biotipo não batia. O assaltante era alto e magro, Ismael é mediano e troncudo.
A delegada de plantão o liberou às 4 horas da madrugada de domingo. Ismael não conseguia andar sozinho e estava zonzo. Foi embora carregado. “Eles simplesmente desistiram de você”, justificou um policial civil.

OAB afirma que caso arranha credibilidade do programa UPS

Para a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB), a tortura sofrida por Ismael da Conceição tira a credibilidade da primeira Unidade do Paraná Seguro (UPS) instalada no estado. “Esse episódio coloca em dúvida se esse programa, que era necessário na cidade, terá condições de diminuir a violência nos bairros. Ainda mais quando os acusados são policiais militares”, afirma a vice-presidente da Comissão de Direitos Humanos da seção Paraná da OAB, Isabel Mendes.
De acordo com ela, a denúncia partiu dos próprios moradores do bairro, que viram o jovem sendo levado pela polícia. “Acompa­­nhamos o exame de corpo delito no Instituto Médico Legal e foi confirmado que o rapaz foi torturado. Ele apanhou e levou choques elétricos. Os policiais ainda colocaram um saco plástico em sua cabeça para ele ficar sem respirar por algum tempo”, relata Isabel.
A Comissão de Direitos Hu­­ma­­­nos da OAB comunicou oficialmente o fato à Secretaria de Justiça, Cidadania e Direitos Humanos (Seju) na manhã de ontem. A secretária Maria Tereza Uille Gomes determinou que uma equipe da Seju acompanhasse Isabel até o Uberaba. (DA)

Pânico e revolta

Ao longo das 36 horas seguintes, Ismael e Lairi não voltaram a sair para a rua. A dona da casa não acredita que eles possam ser ameaçados novamente, mas Ismael está em pânico. Sua conversa é calma, mas os olhos permanecem sempre arregalados. Lairi entoa indignação. “A gente não pode aceitar isso. Senão vai ter mais vítimas”, avalia.
Ela lembra que na quinta-feira, dia da ocupação, a família ficou feliz ao ver a polícia no bairro. Imaginava que aquele seria o começo de um prolongado período de tranquilidade. “Nos tornamos vítimas, quando deveríamos estar recebendo proteção.” Na manhã de domingo, dois policiais da Unidade do Paraná Seguro – que nada têm a ver com o ocorrido – visitaram cada uma das casas da rua para perguntar aos moradores como eles avaliavam a atuação do destacamento. Lairi discorreu longamente sobre o que se passou com seu protegido. “Isso nós não estamos sabendo”, ponderou o patrulheiro.

Porta-voz da PM reconhece que houve excesso

A Polícia Militar confirmou no fim da tarde de ontem que identificou dois policiais suspeitos de ser os responsáveis pela tortura do servente de pedreiro Ismael da Conceição no Uberaba. Se­­gundo o major Antônio Zanata Neto, porta-voz da PM, será instaurado um inquérito policial para apurar de fato o que aconteceu. Se confirmada a culpa, os PMs envolvidos podem até ser expulsos da corporação.
“Um oficial da Polícia Militar foi até o Instituo Médico Legal e acompanhou o exame de corpo delito. Foi confirmado que houve tortura por parte da Polícia Militar”, admitiu o major. Para acompanhar o inquérito será solicitado o acompanhamento de um promotor público.

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sábado, 13 de julho de 2013

* Esterilização de latinos nos Estados Unidos

Investigação revela história secreta de esterilização de latinos nos Estados Unidos

Atualizado em  13 de julho, 2013 - 07:14 (Brasília) 10:14 GMT
BBC
Leis de eugenia permitiam que esterilizações fossem feitas de forma indiscriminada.
Durante boa parte do século 20, milhares de pessoas foram esterilizadas em instituições psiquiátricas nos Estados Unidos, e, em muitos casos contra a vontade de suas famílias.
As intervenções foram feitas em nome da saúde pública e de uma melhoria da raça, e estavam protegidas por leis de eugenia em vigor na época.
Uma nova investigação diz que na Califórnia – estado onde foram praticadas um terço das estimadas mais de 60 mil esterilizações que ocorreram em todo o país nos anos 70 - a população latino-americana foi submetida a esses procedimentos em um nível "desproporcionalmente elevado".
Segundo o estudo, elaborado pela professora de história da medicina da Universidade de Michigan, Alexandra Minna Stern, e pela estudande de pós-graduação em instituições psiquiátricas da California, Natalie Lira, cerca de 25% dos cerca de 20 mil pacientes esterilizados eram latinos, sendo a maioria deles mulheres de origem mexicana.

Seleção genética

A eugenia foi uma corrente de pensamento médico e social que surgiu no final do século 19, cuja premissa era de que, por meio de uma seleção genética, você pode melhorar a espécie humana.
Os Estados Unidos foram um dos países onde o movimento ganhou força de forma mais rápida e intensa. Em 1907, o estado de Indiana foi o primeiro a aprovar uma lei que permitia o programa de eugenia, seguido em 1909 por Washington e Califórnia.
Antes da Segunda Guerra Mundial, 32 estados americanos já haviam aprovado leis deste tipo, e em muitos casos, a prática forçada de esterilização era apoiada.
Num primeiro momento, esse procedimento foi criado para pessoas com problemas psiquiátricos ou com deficiência mental, mas, em seguida, expandiu-se para os grupos que, na opinião de especialistas, apresentavam algum tipo de "desvio social", como criminosos, alcoólatras, homossexuais ou mulheres promíscuas.
Em alguns estados, como Carolina do Norte e Califórnia, os negros e hispânicos foram vítimas desta prática em proporções maiores do que qualquer outro grupo.

Sobrenomes hispânicos

"A ideia era que essas esterilizações iriam melhorar a sociedade, por isso havia um grande apoio à eugenia, especialmente na primeira metade do século 20", explica Alexandra Stern, em conversa com a BBC Mundo.
Há cinco anos, em uma visita aos arquivos públicos da cidade de Sacramento, na Califórnia, Stern encontrou 15 mil registros de pacientes que haviam sido admitidos em instituições na Califórnia. Com base nesse achado, ela decidiu investigar "se determinados grupos haviam sido esterilizados em maiores proporções.”
Com a ajuda de Natalie Lira, foram analisados 2 mil registros pertencentes à Colonia Pacífico, uma instituição para pessoas com deficiência mental.
Com base nos sobrenomes dos pacientes elas chegaram à conclusão de que "os latinos - principalmente os com descendência mexicana - foram esterilizados de forma desproporcional".
De acordo com Stern, "os números obtidos reforçam a ideia de que naquele tempo havia um racismo científico na Califórnia."

Mais mulheres

BBC
Do total de intervenções realizadas em pacientes hispânicos, 61% foram em mulheres.
Das esterilizações realizadas entre 1928 e 1951 na Colônia do Pacífico, 23% foram realizadas em pacientes de origem hispânica, atingindo 36% em 1939.
De acordo com Natalie Lira, muitos destes pacientes foram admitidos por terem praticado ações consideradas anti-sociais, e não porque sofriam alguma deficiência mental.
"No caso dos meninos, se tratavam de jovens delinquentes, provenientes de famílias desestruturadas, que haviam sido enviados para as instituições por um juiz. Enquanto que, muitas das meninas foram colocadas lá por serem consideradas promíscuas, ou porque tiveram filhos sem estarem casadas", disse Lira.
Outro dado apresentado pelo estudo mostra que o número de mulheres hispânicas esterilizadas era maior do que o de homens.
O estudo concluiu que do total de intervenções realizadas em pacientes de origem hispânica, 61% foram em mulheres e 38% em homens. Na opinião de Alexandra Stern, o resultado é um reflexo do preconceito que existia na época contra mulheres de origem mexicana, que eram acusadas, além de promíscuas, de terem muitos filhos.
E, como destaca a pesquisadora, muitas das mulheres hispânicas eram de uma classe social baixa e, em muitos casos, tinham um comportamento que, na época, era considerado socialmente inaceitável.

A batalha dos pais

"Foram os pais e mães de mexicanos que lutaram contra o programa de esterilização na Califórnia"
Alexandra Stren, historiadora
Um dos fatores que contribuiu para que as esterilizações fossem realizadas impunimentes, é que a lei que permitia a prática de eugenia na Califórnia não exige o consentimento do paciente ou de seus familiares. Bastava a justificativa dos responsáveis pelas instituições psiquiátricas.
No entanto, de acordo com Alexandra Stern, muitos pais de pacientes de origem mexicana fizeram tudo em seu poder para evitar que seus filhos fossem esterilizados.
"Foram os pais e mães de mexicanos que lutaram contra o programa de esterilização na Califórnia. Eles foram os mais ativos. Eles contataram o consulado mexicano, advogados e representantes da igreja para tentar impedir que seus filhos fossem esterilizados", diz Stern.
"Eu acho que tinha a ver com sua fé religiosa e com a importância que eles davam a família. Além disso, eles queriam proteger seus filhos do poder de um Estado que era racista. Foi parte da luta dos mexicanos para que seus direitos fossem reconhecidos na Califórnia", disse a pesquisadora.
Depois da Segunda Guerra Mundial, a eugenia e os programas de esterilização perderam o apoio da opinião pública americana.
Por isso, no início dos anos 50, o número de esterilizações realizadas em estados que adotaram leis de eugenia diminuíram consideravelmente, e a prática só continuou em alguns estados como, por exemplo, na Carolina do Norte, até o início dos anos 60.
Na Califórnia foi preciso esperar até 1979 para que a lei fosse revogada.
"Para mim, é muito importante revelar os padrões demográficos das esterilizações, mas não devemos esquecer que por trás de cada esterilização havia uma pessoa, e eu quero, com os poucos documentos que existem, tentar restaurar a dignidade dessas pessoas e mostrar como seu direitos civis e humanos foram violados," afirma Stern.
"Você pode facilmente perder os números, mas como historiadores devemos resgatar as vozes daqueles que sofreram sob esse sistema", conclui a especialista.