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domingo, 24 de agosto de 2014

* Denúncia e repúdio à onda de violência no campo no Brasil em 2014


Em 2014, já foram registrados 23 assassinatos em conflitos no campo.


A diretoria e a coordenação executiva nacional da CPT divulgam uma nota pública na qual denunciam e repudiam a onda de violência no campo, intensificada nos meses de julho e agosto deste ano. Além das quatro mortes na última semana, no mês de julho, em apenas 20 dias, a CPT registrou sete assassinatos
De acordo com informações do Centro de Documentação da CPT Dom Tomás Balduino, em 2014, já foram registrados 23 assassinatos em conflitos no campo, sendo que mais três estão sob averiguação. Confira os dados parciais de assassinatos em 2014, em anexo na matéria.
A Diretoria e a coordenação executiva nacional vêm a público se manifestar diante da onda de violência no campo na semana de 10 a 17 de agosto, com o assassinato de três trabalhadoras e um trabalhador. Mais uma vez são mortes anunciadas, sem que se tomem as devidas providências para evitá-las.
No último dia 12 de agosto, no sudeste do Estado do Pará, Maria Paciência dos Santos, 59 anos, foi atropelada por um caminhoneiro que avançou sobre os 1.500 manifestantes do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST), que marchavam pela BR-155, chamando a atenção para o descaso com a Reforma Agrária. O local é próximo à curva do "S”, onde ocorreu o Massacre de Eldorado dos Carajás, em 1996, quando a polícia matou 19 Sem Terra. O trânsito estava liberado em uma faixa, mas foi bloqueado pelos manifestantes após o brutal assassinato de Maria, que morreu na hora.
No dia 13, foi assassinada a tiros a ex-presidenta do Sindicato dos Trabalhadores na Agricultura de União do Sul, no Estado do Mato Grosso, Maria Lúcia do Nascimento, que morava no assentamento Nova Conquista II. Tanto ela quanto outras famílias assentadas e dirigentes do Sindicato de Trabalhadores na Agricultura local já haviam sofrido ameaças do dono da fazenda, Gilberto Miranda, registradas em Boletins de Ocorrência e em atas de denúncias feitas, diretamente, ao ouvidor Agrário Nacional, desembargador Gercino José da Silva Filho. As ameaças foram testemunhadas, inclusive, por oficiais de justiça.
No último sábado, 16, o presidente da Associação ASPRONU (Associação de Produtores Rurais Nova União), Josias Paulino de Castro, 54 anos, e sua esposa, Ireni da Silva Castro, 35 anos, foram assassinados, no Distrito de Guariba, Município de Colniza, Mato Grosso. Em 05 de agosto, Josias havia participado, em Cuiabá, de uma audiência com o ouvidor Agrário Nacional, desembargador Gercino, e com várias outras autoridades de Mato Grosso. Josias denunciara políticos da região por extração ilegal de madeira, a Polícia Militar por irregularidades e órgãos públicos por emissão irregular de títulos de terras, assim como a existência de "pistoleiros” na região. Josias, segundo o site Pantanal, nesse mesmo dia, teria afirmado: "Estamos morrendo, somos ameaçados, o Governo de Mato Grosso é conivente, a PM (Polícia Militar) de Guariba protege eles, o governo federal é omisso, será que eu vou ter que ser assassinado para que vocês acreditem e tomem providências?”.
Foto de arquivo


Além dessas mortes, acontecidas nos últimos dias, o Centro de Documentação Dom Tomás Balduino, da CPT, registrou um sangrento mês de julho, com sete assassinatos em 20 dias, em quatro estados da federação. O ano de 2014 já apresenta-se como mais violento que o ano anterior. De janeiro a 18 de agosto, se contabilizam 23 assassinatos em conflitos no campo, havendo ainda três casos em averiguação. No mesmo período de 2013, o número de assassinatos registrado era de 21.
"A violência está presente em todo o território nacional. Diante dos olhos das autoridades, que deveriam, concretamente, agir de forma a exterminá-la, definitivamente. O ouvidor agrário nacional, assim como a Secretaria de Direitos Humanos, tem acompanhado todas as denúncias, ameaças, indícios de irregularidades, mas nada foi feito em vista de barrar o avanço dos assassinatos e do extermínio dos povos do campo”, afirma a CPT.
Quando estas mortes provocarão respostas claras e sérias dos órgãos públicos?
De acordo com a Comissão, toda essa violência se dá no momento em que a Reforma Agrária estaria sumindo dos programas de governo dos principais partidos políticos, que disputam a Presidência da República. A demarcação de terras indígenas e quilombolas, da mesma forma, estariam paralisadas. "E os candidatos à Presidência assistindo de camarote, sem nenhuma resposta clara a essas demandas em seus planos de governo”.
A CPT destaca que, de fato, o programa político da atual presidenta, Dilma Rousseff, à reeleição, não reserva nenhuma linha à Reforma Agrária. O programa de Aécio Neves, principal candidato da oposição, passa pela tangente, somente citando a Reforma Agrária como necessária para garantir a segurança alimentar. O programa do PSB [Partido Socialista Brasileira], cuja candidata é a ex-ministra do Meio Ambiente do Governo Lula, Marina Silva – após a morte trágico do ex-candidato Eduardo Campos, na última semana – ainda fez duas ou três leves insinuações sobre a Reforma Agrária. "Fica mais que patente que a reforma agrária não é hoje prioridade para nenhum dos partidos com chance de chegar à Presidência”.
Violência tem gerado fuga do campo.


Ironia do destino, na visão da Comissão: ao mesmo tempo em que três grandes figuras femininas despontam na disputa à Presidência da República, numa semana, três mulheres, lutadoras, são assassinadas em conflitos pela terra. A CPT espera ainda que providências efetivas sejam tomadas no caso dessas mortes, e não apenas reduzidas a grupos de trabalho que, até o momento, não se provaram eficazes. "Que o Estado brasileiro (Executivo, Judiciário, Legislativo) crie ações efetivas para a diminuição da violência no campo. Que a apuração dos fatos sejam eficientes, que o Judiciário não seja subserviente, que a legislação não seja flexibilizada e o Executivo crie condições efetivas de manter a população no campo”.

sexta-feira, 14 de março de 2014

* Governo do Estado de Pernambuco enviou Batalhão de Choque da PMPE contra pacíficos manifestantes em Serro Azul

Fotos e imagens mostram a revolta dos moradores das áreas de risco da Barragem de Serro Azul, em Palmares - PE.
Esta semana o Governo do Estado enviou tropas do Batalhão de Choque da PMPE para reprimir manifestantes que fizeram acampamento, bloqueio da PE 103 e pararam obras da barragem. Os policiais munidos de escudos, bombas de gás e balas de borracha acionaram os artefatos bélicos contra os manifestantes que estavam em protesto pacífico.
As reivindicações são sobre pagamentos de idenizações, construções de moradias para os cidadãos residindo na área de risco da barragem. E várias comunidades rurais estão sem poder escoar a produção agrícola por motivos de problemas nos desvios da PE 103 derivados da construção da barragem.

Outra crítica feita pela população diz respeito a supostas fissuras no paredão da barragem, que teriam sido causadas pela chuva. “Essa obra está mal construída e quem está pagando somos nós, a população. Vamos ficar no prejuízo porque querem nos mandar para a área urbana. Como vamos plantar?”, questionou o morador João Faustino.
Moradores da área de risco testemunharam que "o paredão que é 70% de barro está se diluindo como algodão doce" (vejam vídeos abaixo).


Nenhum representante da Seinfra se pronunciou sobre as denúncias.

Os moradores de Serro Azul disseram à reportagem da Rádio Nova Quilombo FM que já deveriam ter sido retirados do local há dois dias, mas não receberam nenhuma ordem de despejo nem receberam as indenizações prometidas no acordo com o Governo.

Eles afirmaram que a obra está prejudicando as pessoas que residem na área, estão sofrendo com a poeira causada pela obra e também amedrontadas com as pedras que caem em cima das casas, por conta de explosões das pedreiras. “O Governo promete e não cumpre. Nós estamos reivindicando nossos direitos”, disparou o agricultor Elson José da Silva.

Grande falha de comunicação do Governo do Estado, desde início das obras, como nossa reportagem acompanhou (vejam links no final desta matéria). E o povo sentiu muito a falta da presença do Prefeito dos Palmares que deveria ser "a ponte entre o povo e o Governador", e não acompanhou de perto a obra que é no território do Município que ele administra.

Abaixo, vídeos filmados por moradores manifestantes vítimas da barragem em Serro Azul, Palmares - PE mostram cenas da chegada do Batalhão de Choque da PMPE e como agiram contra os manifestantes:














Veja mais reportagens sobre a Barragem de Serro Azul, no Distrito de Serro Azul, em Palmares - PE, que nossa reportagem acompanha desde 2011:

* Protesto paralizam obras da Barragem de Serro Azul e bloqueiam rodovia PE 103.


sexta-feira, 20 de setembro de 2013

* Crianças do RN perdem as digitais na quebra da castanha de caju

Meninos e meninas têm as mãos queimadas por ácido e perdem as digitais dos dedos no processo de quebra da castanha de caju. Mesmo após denúncias, o problema persiste no Rio Grande do Norte.
Passado um primeiro momento de grande arrancada na prevenção e eliminação do trabalho infantil no Brasil, do início dos anos 1990 a meados dos anos 2000, o país enfrenta um novo desafio para manter o ritmo de queda. Enquanto a primeira fase foi marcada pela retirada de crianças e adolescentes das cadeias formais de trabalho, o novo desafio são as piores formas de exploração, como o processamento da castanha, que o poder público tem mais dificuldade de erradicar. O trabalho informal e precário atinge especialmente os adolescentes e jovens e está relacionado à evasão escolar e à falta de alternativas oferecidas pelo mercado. A erradicação requer um plano com ações, metas e indicadores. E uma ação política coordenada.
Muitos leitores ficam irritados quando conectamos trabalho infantil ou escravo ao nosso consumo, o que significa nos inserir como parte beneficiária da cadeia de escoamento. Pois não deveriam. Não é culpa que se busca com a transparência da origem dos produtos que consumimos, mas essa informação é fundamental para pressionar governos e empresas a adotarem políticas a fim de garantir que isso não aconteça. Afinal de contas, a ignorância é um lugar quentinho.
A reportagem é de Daniel Santini, da Repórter Brasil, que foi a João Camara, no Rio Grande do Norte, verificar as condições das crianças que perdem as digitais no processamento da castanha:
Olhe a ponta do seu dedo. Repare no conjunto minúsculo de linhas que formam sua identidade. Essa combinação é única, um padrão só seu, que não se repete. As crianças que trabalham na quebra da castanha do caju em João Câmara, no interior do Rio Grande do Norte, não têm digitais. A pele das mãos é fininha e a ponta dos dedos, que costumam segurar as castanhas a serem quebradas, é lisa, sem as ranhuras que ficam marcadas a tinta nos documentos de identidade.
O óleo presente na casca da castanha de caju é ácido. Mais conhecido como LCC (Líquido da Castanha de Caju), esse líquido melado que gruda na pele e é difícil de tirar tem em sua composição ácido anacárdico, que corrói a pele, provoca irritações e queimaduras químicas. No vilarejo Amarelão, na zona rural de João Câmara, as castanhas são torradas – além de corroer a pele, o óleo é inflamável – e quebradas em um sistema de produção que envolve famílias inteiras, incluindo as crianças.
colocara uma legenda aqui
Com a pele cada vez mais lisa, as pontas dos dedos perdem as digitais, e as linhas e traços de identidade se esfacelam (Fotos Daniel Santini/Repórter Brasil)
O óleo é pegajoso. Basta pegar uma castanha e quebrá-la para ficar com a pele manchada por alguns dias. Nem todas as crianças e os adultos que trabalham no processo sabem que o óleo é ácido. Muitos acham que a mão fica assim machucada por conta da água sanitária utilizada para tirar o preto encardido da mão depois de horas seguidas manuseando e quebrando as castanhas torradas. “Se fosse assim, as pessoas que usam água sanitária para limpeza estariam roubadas! É o óleo LCC que tem uma ação irritante, ele é cáustico, produz lesões e chega a retirar as digitais”, explica o médico Salim Amed Ali, autor de diferentes estudos sobre doenças ocupacionais para a Fundação Jorge Duprat Figueiredo de Segurança e Medicina do Trabalho (Fundacentro), do Ministério do Trabalho e Emprego. A perda da identidade não é permanente. Com o tempo, as digitais voltam se a pessoa se afastar da atividade.
Sobrevivência - O médico fez pesquisas específicas sobre a saúde de trabalhadores de unidades industriais de processamento de castanhas de caju e diz que a atividade pode ser considerada insalubre. No caso em questão, em que a produção é totalmente artesanal e as famílias dependem do trabalho para sobreviver, ele destaca quão contraditória é a situação. “A subsistência está calcada em condições de trabalho inviáveis. Para viver, o sujeito precisa se submeter a condições inaceitáveis e as crianças acabam sacrificadas. Não dá para aceitar isso em pleno século 21”, afirma.
Um menino e uma adolescente se revezando ao redor da mesa. A garota é quem cuida do fogo, alimenta a lata improvisada com cascas de castanha e controla as labaredas espirrando água com uma garrafinha. A fumaça sobe e cobre seu rosto. Um cachorro dorme perto do fogo. Eles estão nessa atividade desde a madrugada, começaram às 3 horas. É preciso começar cedo, no sol do sertão nordestino, não dá para continuar com o calor de meio-dia.

Os trabalhos começam cedo, devido ao calor do sertão nordestino; ao meio-dia, o sol é muito forte para prosseguir
O garoto tem 13 anos e, assim como a irmã, cursou até a quarta série do ensino fundamental mas tem dificuldades para ler e escrever. Largou a escola na quinta série porque teria de viajar uma hora de ônibus para ir até uma que atende alunos mais velhos, localizada na área urbana de João Câmara – trabalhar e estudar ao mesmo tempo já é difícil quando a escola é perto; quando não há escolas perto, impossível. Ele quebra as castanhas com agilidade, seus dedos fininhos seguram, selecionam e escapam das pancadas duras.
São poucas as palavras, ambos trabalham em silêncio e as respostas são curtas. Na mesa vizinha, os mais velhos reclamam da falta de água – a que a prefeitura tem entregue para abastecer as cisternas do bairro é salobra. “Dá dor de barriga e aí a gente tem de comprar água de garrafa, vê se pode”, conta uma mulher de 63 anos, que já passou fome e acha melhor que as crianças trabalhem com castanhas do que colhendo algodão ou roçando pasto para o gado, atividades que exerceu quando criança.

Meninas, meninos, pais, mães e famílias inteiras se misturam para organizar a produção das castanhas
Em outra unidade de produção, uma família adapta o ritmo à existência de um recém-nascido. Uma adolescente, também de 15 anos, se reveza com o marido de 18 anos e sai, de tempos em tempos, para amamentar o bebê. “Eu lavo as mãos bem antes de pegá-lo, para não sujá-lo”, conta a mãe, antes de fazer uma pausa às 4 horas. O trabalho costuma ir até as 11 horas e, à tarde, todos trabalham tirando a pele fininha.
O emprego de crianças na quebra da castanha de caju está incluído na lista de piores formas de trabalho infantil, ao lado de atividades como beneficiamento do fumo, do sisal e da cana-de-açúcar. A situação a que estão submetidas as crianças de João Câmara (RN) não chega a ser novidade. A auditora fiscal do trabalho Marinalva Cardoso Dantas, coordenadora do Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho da Criança e de Proteção ao Adolescente Trabalhador, tem realizado sucessivas ações de fiscalização, denunciado a situação e cobrado soluções. “Não dá para aceitar que as crianças continuem nessa situação, mas não basta reprimir, é preciso oferecer alternativas”.
Além de identificar as crianças e reunir informações para relatório a ser entregue ao Conselho Tutelar da cidade, ela também tem procurado cobrar providências por parte da prefeitura sobre a situação das famílias. Os programas sociais são considerados insuficientes pelos moradores, que reclamam da atuação do poder público. “Sabemos do que está acontecendo, mas até agora não conseguimos avançar”, admite Maria Redivan Rodrigues, secretária de Assistência Social e primeira-dama de João Câmara, que promete solucionar o problema em um ano, até setembro de 2014. O Brasil se comprometeu a erradicar as piores formas de trabalho infantil até 2015, mas, mesmo com denúncias, situações com a de João Câmara persistem.
Em 24 de fevereiro de 2012, o promotor Roger de Melo Rodrigues, do Ministério Público Estadual, abriu o Inquérito Civil nº 06.2012.00003777-7 após denúncias. “Ele disse que ia processar as famílias, tentou proibir as pessoas de trabalhar, deixou todo mundo apavorado. Foi muito ruim”, diz Ivoneide Campos, presidente da Associação Comunitária do Amarelão. “A fumaça faz mal, a gente sabe, mas as famílias não querem mudar o método com que sempre trabalharam. E não adianta forçar, tem de transformar em querer, ajudar na busca de alternativas”, defende.
Procurado para comentar a reclamação, o promotor negou, em nota, que sua atuação tem sido meramente repressiva. Ele diz que “os problemas relacionados à queima de castanha, tais como impacto ambiental, danos à saúde dos moradores e trabalho infantil, não têm passado desapercebidos do Ministério Público Estadual” e que “em vez de buscar a repressão de delitos relacionados ao caso, esta Promotoria tem priorizado o diálogo com a respectiva comunidade, já havendo sido realizadas duas reuniões no local com todos os interessados e representantes de órgãos municipais, estaduais e federais, objetivando a construção de um consenso para solucionar o caso”.
O promotor reclama, porém, que embora “busque uma resposta adequada e legítima aos problemas, tem enfrentado alguma resistência relacionada ao costume já enraizado, da parte de algumas famílias locais, de proceder à queima de castanhas ao alvedrio dos respectivos danos decorrentes, o que não impedirá uma atuação isenta e efetiva para a resolução do caso”.
Potiguar - Entre as famílias que dependem do processamento de castanhas de caju para sobreviver estão as de um assentamento localizado na região de índios Potiguar, um dos poucos núcleos remanescentes dessa etnia que no passado povoou o estado inteiro. Os ganhos são mínimos. A castanha crua é comprada de pequenos produtores da região de Serra do Mel. Um saco de 50 kg rende, em média, 10 kg de castanha processada. As famílias contam que ganham de R$ 30 a R$ 100 por semana, vendendo a produção a intermediários que revendem em feiras e mercados de cidades.

Assim que as castanhas estão torradas, as mãos se levantam; pancadas quebram uma noz, depois outra e outra, e outra
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O óleo se esparrama em torno das unhas, pela ponta dos dedos e, quando se vê, as mãos inteiras já estão cheias de ácido
“Tentamos identificar quem lucra com isso, mas é um sistema muito primitivo. As indústrias organizaram a produção e estão processando diretamente as castanhas, não identificamos nenhuma envolvida. Os intermediários são pequenos comerciantes que adquirem o produto diretamente com as famílias”, explica o auditor fiscal José Roberto Moreira da Silva.
Criatividade na busca por soluções para as famílias não falta. Nilson Caetano Bezerra, do Fórum Estadual de Erradicação do Trabalho da Criança e de Proteção ao Adolescente Trabalhador Aprendiz, por exemplo, sonha em fazer parcerias com as empresas de produção de energia eólica, que fazem multiplicar o número de torres de geração na região, para empregar adolescentes como aprendizes. E em providenciar máquinas para que os adultos não tenham de manusear as castanhas torradas. Experiências com mecanização já aconteceram, mas o descasque manual ainda é o preferido porque a taxa de desperdício é menor.

Mesmo que já exista formas de produção mecanizadas, ainda há preferência pelas técnicas manuais, que seriam mais produtivas
Em fevereiro, o juiz Arnaldo José Duarte do Amaral, titular da 9ª Vara do Trabalho de João Pessoa, visitou a comunidade e também encontrou as crianças trabalhando na produção de castanhas. Ele escreveu um artigosobre a questão e, desde então, tenta articular soluções e envolver mais interessados em resolver o problema. “Quando estive lá como juiz, me perguntavam se ia prender alguém. Não é esse o papel do judiciário, o objetivo não é prender ninguém, é achar solução”, diz, defendendo a formação de cooperativas e mecanismos de economia solidária como o melhor caminho para erradicar o trabalho infantil e melhorar a condição de trabalho dos adultos. “A gente tenta corrigir essas questões há séculos, sem sucesso. Não bastam ações repressivas, que vão além de tentar punir.”
(Reportagem produzida em parceria com Promenino/Fundação Telefônica Vivo, e publicada também no site Promenino, que reúne mais informações sobre combate ao trabalho infantil)

sábado, 31 de agosto de 2013

* Município sergipano de Brejo Grande é considerado território quilombola


Em verde, área considerada ‘Quilombo Brejão dos Negros’, equivalente a oito mil hectares (Reprodução: Ministério Agrário)
Em verde, área considerada ‘Quilombo Brejão dos Negros’, equivalente a oito mil hectares (Reprodução: Ministério Agrário)
O Ministério do Desenvolvimento Agrário (MDA), através do Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), emitiu um parecer técnico conclusivo, garantido que o município de Brejo Grande, localizado a 137 km da capital sergipana, é território remanescente de quilombo. O laudo indiscutível batizou a região que fica entre Brejo Grande e Pacatuba, de território da comunidade remanescente do ‘Quilombo Brejão dos Negros’.
O relatório antropológico já foi concluído. Caso a Presidenta Dilma Rousseff (PT), homologue o reconhecimento de área de oito mil hectares, como sendo de remanescente de quilombo, já declarado por órgãos federais, a município de Brejo Grande pode deixar de existir. Assinando o decreto, a Polícia Federal e o Instituto Nacional de Colonização e Reforma Agrária (Incra), irão tirar todos que estão dentro das terras reconhecidas.
Se assinado o Decreto Presidencial, 50 propriedades, entre sítios, ilhas, fazendas e casas, passarão a título de posse, uso fruto, para a Associação Quilombo Brejão dos Negros, equivalente a cerca de oito mil hectares de área, rural e urbana.
Clique aqui e leia
*Extraído de matéria de Roberto Miranda, publicada em Aqui Acontece.

segunda-feira, 15 de julho de 2013

* CPT denuncia chuva de agrotóxicos e estudantes revoltados depredam escola!

Nota pública sobre banho de agrotóxicos na Escola de Rio Verde, em Goiás

Por , 15/07/2013 11:17
agrotxicosCPT – Nota da Campanha Permanente contra os Agrotóxicos e pela Vida reitera a necessidade do governo federal proibir de forma imediata a pulverização aérea e a regulamentação da pulverização terrestre, mediante os vários problemas ambientais e de saúde pública que a prática tem ocasionado. Confira o documento:
Ao povo brasileiro,
A Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida, vem por meio desta nota manifestar sua posição em relação aos acontecimentos que desde o dia 03 de maio vem ocorrendo na escola rural do assentamento pontal dos Buritis localizado na cidade de Rio Verde – GO.
Em 03 de maio uma aeronave da empresa Aerotex sobrevoou a escola durante uma aplicação do agrotóxicos/veneno conhecido como Engeo Pleno da empresa Syngenta,  fato que resultou no registro de 93 casos de intoxicação, na sua maioria crianças.
Desde então a atenção à saúde dessas crianças e das demais vítimas, tem sido feita de forma precária e lenta, de modo que muitas crianças dias depois do ocorrido, quando ficaram internadas, tiveram de voltar ao hospital sofrendo sintomas das intoxicações.
Nos dias 25 e 26 de junho uma equipe de profissionais da Associação Brasileira de Saúde Coletiva – ABRASCO, INCA e da Fiocruz, assessorando o Ministério Público Federal visitou a região e conversou com pessoas que sofreram intoxicações. A equipe contava com médicos profissionais da área de saúde coletiva, toxicologistas, entre outros.
Durante a visita a recomendação feita pelo Ministério Público Federal foi de manter a suspensão das aulas, até que seja assegurado o integral restabelecimento das condições sanitárias e ambientais da unidade escolar.
Na noite do dia 30 de junho a escola foi depredada, e segundo a delegada responsável pelo caso a ação foi realizada por alunos que estudam na mesma.
Nós da Campanha não reconhecemos a ação, porém reconhecemos que banhar a escola de veneno e contaminar dezenas de pessoas em sua maioria crianças também é um ato de depredação, não apenas do patrimônio público, no caso a escola, mas um ato de violência contra a vida.
Queremos alertar para que o centro das atenções não sejam voltadas apenas para o ato da depredação, que por sua vez fica claro como uma resposta de repudio (ainda que equivocada) em relação ao crime cometido quando da pulverização da escola.
Na reportagem exibida pela TV Anhanguera (veja após esta matéria) vemos no quadro as palavras “Protesto Veneno” que deixa claro que tal ato é apenas consequência do crime cometido contra a escola e a vida das pessoas que nela se encontravam quando a mesma foi banhada de veneno, bem como um protesto contra a lentidão no cuidado com a saúde dos intoxicados.
Exigimos que o poder público possa tomar as providências em relação à pulverização aérea de agrotóxicos, punindo os responsáveis daquilo que foi o estopim dos vários problemas que vem enfrentando a escola e as pessoas intoxicadas.
Vale lembrar que o caso da escola de Rio Verde em relação à contaminação por agrotóxicos através da pulverização aérea não é um ato isolado, mas algo recorrente dessa forma de aplicação de veneno que mesmo cumprindo com as exigências legais para aplicação – o que na maioria das vezes não acontece – é extremamente perigosa e contaminante do meio ambiente e das pessoas.
É por isso que exigimos do governo federal a proibição imediata da pulverização aérea e a regulamentação da pulverização terrestre, pois os agrotóxicos como vimos não só geram problemas ambientais e de saúde pública, mas sim um conjunto de problemas sociais, os quais a sociedade brasileira pode evitar adotando um modelo de agricultura baseado na produção agroecológica e sem veneno.
Dessa forma oferecemos a nossa solidariedade a todos os educandos, pais, professores, ao diretor da escola e a todos aqueles e aquelas que de uma forma ou de outra estão sendo afetados pelos acontecimentos trágicos na escola do assentamento Pontal dos Buritis.
Atenciosamente,
Campanha Permanente Contra os Agrotóxicos e Pela Vida
Brasília – DF, 10 de julho de 2013.
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01/07/2013 19h51 - Atualizado em 01/07/2013 19h51

Escola atingida por veneno agrícola é depredada, em Rio Verde, GO

Unidade teve o portão arrancado e seis salas de aulas destruídas.
Vândalos deixaram recado no quadro: 'Protesto veneno'.

Do G1 GO, com informações da TV Anhanguera

A escola rural do Assentamento Pontal dos Buritis foi depredada na noite deste domingo (30). O local, a 115 quilômetros de Rio Verde, região sudoeste de Goiás, teve seis salas de aula destruídas. Os vândalos jogaram pedras em vidraças, quebraram prateleiras, bebedouro e ar-condicionado, arrancaram um portão e ainda deixaram um recado no quadro-negro de uma sala: “Protesto veneno”. Alunos da unidade foram atingidos por agrotóxico despejado de um avião agrícola no último dia 3 de maio.
O agricultor Eraldo Silva Santos, que mora perto da escola, afirma que não viu os suspeitos. “Eu até ouvi um barulho à noite, levantei e acendi a luz de casa, mas as pessoas devem ter corrido”, acredita.
Mãe de uma estudante, Maria Divina Faria conta que um filho já estudou na unidade e que foi para faculdade. “Eu batalho para minha outra filha ir também para a faculdade e aí você vê uma tristeza dessa. Dá vontade até de chorar”, desabafa.
O diretor da escola, Hugo Alves dos Santos, disse que a polícia já foi até o local e investiga o caso. Os prejuízos ainda não foram contabilizados, mas o colégio passará por uma reforma. Caso a obra não seja finalizada até o final das férias do mês de julho, 250 alunos terão de ser transferidos para outra unidade, também na zona rural.
O prédio não possui câmeras de segurança. A delegada titular do 1º Distrito Policial, Jaqueline Camargo Machado Queiroz, disse ao G1 que os suspeitos do crime ainda não foram identificados. “Acreditamos que sejam alunos. Parece que acontecia uma festa próxima e pode ser que estudantes foram até a escola para praticar vandalismo”. Ela acrescenta que não se sabe quantos eram, mas que a perícia coleta digitais para identificação.
A unidade foi atingida por agrotóxicos na manhã do dia 3 de maio, quando uma aeronave despejou o veneno em uma lavoura próximo à escola. No momento em que o agrotóxico foi despejado, 122 alunos estavam no estudando e dezenas foram intoxicadas. Na ocasião, foi constatado que o inseticida utilizado não poderia ser usado em aviões, mas apenas aplicado via terrestre.
Escola atingida por agrotóxico é depredada, em Rio Verde, Goiás (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)Uma das salas de aula destruídas por vândalos, em Rio Verde (Foto: Reprodução/TV Anhanguera)